Opinião: A gente passa muito pano pra videogame

A gente passa muito pano pra videogame. Para nós, amantes dos jogos, eles NUNCA têm nada a ver com o comportamento de alguém. Não. Eu não estou falando que um jogo foi culpado por um massacre. Nem é minha intenção passar pano (como jornalista) para jornalismo preguiçoso. O que eu gostaria é de uma reflexão franca sobre o que o videogame pode significar para nós — e, especialmente, para os outros. Pra isso, vou começar com uma história pessoal.

Eu devia ter uns 12 anos e eu era muito viciado em Syphon Filter para Playstation 1 (especialmente o Syphon Filter 3). Eu me lembro claramente de ter sonhos em que eu basicamente tinha que defender minha casa, do quintal, com um rifle tipo ‘sniper’ que o jogo disponibiliza logo na primeira cena. Eu fiquei meio abalado, cheguei a comentar com a minha mãe que queria fazer terapia — em uma época em que isso não era algo comum, muito menos pra uma criança e de classe média-baixa.

Eu não tive meu pedido atendido, porque afinal era ‘besteira’. Cresci, na medida do possível saudável mentalmente e tô aí, jogando sem problemas (apesar de a maioria dos jogos que eu gosto serem +12 e olha lá, se é que não são classificação livre). Não sei se foi por ter passado por uma experiência ruim com um jogo, mas eu penso hoje que não se deve ter tanto desprendimento em relação à influência deles, especialmente para os mais novos. Fazer isso, sair logo em defesa (às vezes até mesmo antes do ataque), ter esse desprendimento cego, pra mim, está no mesmo nível de bobagem de falar algo como “apanhei quando era criança e tô vivo”. O Syphon Filter 3 tem um gráfico horrível para os dias de hoje. Os jogos estão cada vez mais reais (um ponto bastante importante) — e todo mundo está cansado de saber que sangue, pornografia etc. vende. Como tudo isso influencia alguém? De maneira nenhuma que NÃO é. É de conhecimento geral também que, independente da idade, dificilmente a gente vê alguém se preocupar com as recomendações de faixa etária da caixa/serviço online, e os servers, vídeos de jogos para adultos no Youtube etc. estão lotados de crianças. Aliás, de onde vem esse nosso, cada vez mais presente, fetichismo por armas? A gente sabe o nome da maioria das armas que conhecemos por causa de videogame. Ou não?

O meu ponto é especialmente o que tudo que a gente vive, consome etc. tem algum impacto na nossa vida. Pode até ser que esse impacto não seja suficiente para nos fazer entrar numa escola e assassinar a sangue frio várias pessoas, mas pode nos tornar pessoas mais violentas, sim. Tem vários dados mais do que conhecidos sobre violência, principalmente a praticada por homens, público-alvo histórico de jogos e outros brinquedos de ‘ação’ (há outros fatores pra isso, claro). E a comunidade gamer é machista-escrota-pra-caralho, é inegável. Esse masculinismo e racismo de ‘chan’ da vida não existe só no ‘chan’.

E os vídeos de ataques a feministas do Red Dead? E o ‘jogo’ de estupro? E o jogo do Bolsonaro?… só pra citar alguns casos (RECENTES).

É bem crítico desconsiderar a nossa experiência com jogos (quando normalmente consideramos muitas outras), ainda mais quando muitos ficam horas e horas jogando diariamente. O mundo virtual não é exatamente outro mundo, já sabemos faz tempo.

Outra questão é usar a nossa régua para as outras pessoas. Se a gente, por acaso e exemplo, “apanhou dos pais e sobreviveu”, não quer dizer que o outro passou por isso psicologicamente ileso — nem dá para saber se o outro apanhou tanto quanto você ou mais. Além disso, é preciso considerar também que uma pessoa saudável emocionalmente, como a gente costuma se julgar, tem reações diferentes aos mesmos estímulos que uma pessoa menos equilibrada (novamente, só senso comum — mas plausível — ignorado). E tudo isso é ignorado por que, afinal? Por que a gente sente uma necessidade de defender os jogos? A gente quer defender o que, aliás? Será que o pessoal, de repente, teme que as empresas parem de fazer jogos por causa de um ou outro caso? Mesmo que isso acontecesse, a gente ia passar a vida inteira sem conseguir terminar todos os jogos produzidos que, em consenso também, valem a pena serem terminados. O que vale a pena também, insisto, é refletir sobre a questão sem o escudo já montado, o cabresto. Um bom começo é: o jogo que meu(minha) filho(a)/sobrinho(a)/irmã(o)/etc. está jogando é compatível com a idade dele(a)?

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